Design e Gastronomia. O que uma coisa tem a ver com a outra? Os que acompanham a minha coluna aqui na Zupi sabem que gosto de associar e relacionar o design a outras formas de criação. Já comentei sobre a relação entre o design e o cinema, música, teatro e, agora, vou associá-lo à gastronomia. Até porque gosto de cozinhar e, quando possível, transformo esse ato em um ritual, e não apenas de sabores.
Acredito que quanto mais aguçados forem os nossos sentidos, quanto mais sinestésicos formos, mais afinada será a nossa sensibilidade e capacidade criativa. É comum que, depois de algumas horas envolvida na cozinha, eu obtenha ótimos resultados criativos em frente ao computador ou diante de numa folha de papel. Os aromas de cada tempero, de um bom vinho ou até mesmo de uma boa cachaça aguçam os outros sentidos e nos deixam mais capazes de perceber cores e formas.
Cozinhar é um ato de criação e de observação:
— o ponto correto de aquecimento de azeite ou óleo;
— a textura perfeita do alho e da cebola;
— a cor correta que vai indicar se a calda está no ponto certo;
— aquela experimentada que vai nos dizendo o que é preciso acrescentar ou quanto tempo mais devemos deixar algo no fogo;

A separação anterior ao cozimento dos temperos, panelas e alimentos é como a organização das ideias iniciais de um projeto. O momento em que escolhemos o melhor corte é como definir a dosagem correta de uma cor.
Sentir tudo isso fluindo no vapor de uma panela ao fogo é perceber antecipadamente como será o resultado final da nossa criação. E, ao final, a montagem do prato, com a escolha dos recipientes onde serão colocados, é um exercício de harmonização, de conjunto, de gestalt. Aliás, a gestalt já existe na percepção de cada sabor enquanto cozinhamos.
A linguagem das cores existe claramente na construção de nossa receita. Cores que, às vezes, podem ser reforçadas para combinar mais com a proposta final de nosso menu. A escolha da bebida correta, que realce o paladar é como uma tipografia bem escolhida para facilitar o entendimento da mensagem. Toalhas de mesa, guardanapos, talheres, um aroma pela sala e uma boa música de fundo formam o cenário de uma construção gastronômica, mas que também é um clima perfeito para fazer com que o lado direito do cérebro, o criativo, fique estimulado para criar mais e melhor.
Muitos são os filmes e peças de teatro que abordam a relação entre a criação visual e a gastronomia. Muitos são os diretores de cinema que se estimulam com os prazeres da culinária e as retratam em suas obras. Mas poucos são os artistas gráficos e designers que abordam essa relação. No entanto, conheço alguns que gostam de criações culinárias e colocam as suas personalidades nas criações visuais e nas gastronômicas. Quantas boas ideias não se originaram em um bom jantar, naquele gostoso papo de botequim ou mesmo no escritório, na companhia do silêncio, junto ao aroma do café, vinho ou chá.
O design e a gastronomia têm a mesma linguagem, que se amplia quando adicionamos o cinema. Um filme que une perfeitamente gastronomia, design e direção de arte é O Fabuloso Destino de Amélie Poulan (de Jean-Pierre Jeunet) que, a seu modo, aplica aos sabores da vida de Amélie as cores vivas de Van Gogh — os seus “vermelhos e verdes das terríveis paixões humanas”. Este filme fez com que, para mim, o creme brullet passasse a ter cores vivas e alegres, mesmo sendo de um amarelo-claro, quase branco.
Outro belo exemplo desta mistura é A Festa de Babette (de Gabriel Axel), receitas inesquecíveis, em um filme maravilhoso, com direção de arte também impecável.
Fica aqui a sugestão: se você já cozinha preste atenção em cada etapa da construção de um prato. Se não cozinha, pegue um livro de receitas, escolha uma e perceba a relação entre estes dois momentos criativos: o design e a gastronomia. Nos momentos de falta de inspiração experimente algo que aguce um destes sentidos. Garanto: o aroma e o sabor de uma boa bebida podem ajudar bastante.
Para ver: De Jean-Pierre Jeunet, O Fabuloso Destino de Amélie Poulan, e de Gabriel Axel, A Festa de Babette.
Para ouvir: Cotidiano, de Chico Buarque
Márcia Okida é designer gráfica, vice-presidente da Associação Cultural Vontade de Ver. Professora nos cursos de Produção Multimídia, Jornalismo e Publicidade & Propaganda; coordenadora de Produção Multimídia. Universidade Santa Cecília (UNISANTA).
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Márcia,
parabéns pelo texto. Temos pontos de vista em comum e tem mto a ver com meu próximo livro, que está no prelo: “Sentidos à mesa - saberes além de sabores” (SP, Rosari). Deve sair no início do ano.
Torno-me, assim, suspeita, ao parabenizá-la.
Oi Rubens e Sandra, legal que gostaram do artigo e que também partilham do mesmo gosto pelo design e culinária
) se quiserem trocar mais informações fiquem a vontade abçs…
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Mtu boa a ligação!
Tbm curto muito cozinhar! (algo q inacreditavelmente, gera certa estranheza, por ser homem, mas enfim…)
E concordo, que ambos são projetos de criação que exigem uma boa atenção, e claro que só praticando e testando, cores, formas e sabores para chegar a um resultado excelente.
parabéns pela materia.
11/11/2009 / 12:30 PM